Íntegra da entrevista coletiva do infectologista David Uip, médico particular do governador, no Inco

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qui, 18/01/2001 - 19h13 | Do Portal do Governo

Uip: O governador foi internado nesta manhã aqui no Instituto do Coração, onde já submeteu-se à primeira sessão de quimioterapia intratecal. Nós vínhamos conversando com a família e com o governador sobre a necessidade de iniciarmos o tratamento. Então, havendo um consenso nós decidimos iniciar a quimioterapia intratecal sob responsabilidade do Dr. Brentani (oncologista) e do Dr. Milberto (neurologista). Esta noite o governador teve uma tentativa de se levantar da cama sem auxílio e teve uma queda aonde ele escoriou um pouquinho a região frontal, especialmente o queixo. Eu avaliei pela manhã. Ele estava com pequenas machucaduras como depois vocês vão ter oportunidade de ver e tinha um pequeno edema em mãos e pernas, provavelmente provocados pelo uso de corticóides e ele concordou de vir ao hospital a despeito de ter outros compromissos. Eu achei que a decisão médica incluía trazê-lo ao hospital para ver essa parte, inclusive de um inchaço e para iniciar a terapêutica específica do tumor. Eu não vou me deter a respeito do tratamento específico porque os responsáveis são o Dr. Milberto e o Dr. Brentani.

Repórter: Foi uma emergência?

Uip: Não. Não foi uma emergência porque o fato aconteceu a uma e meia da manhã e eu fui vê-lo às sete horas da manhã. Óbvio que nós falamos com a enfermeira, nós conversamos, ele rapidamente se recuperou, voltou para a cama e dormiu. Mas houve a queda por uma imprudência de ter levantado sem auxílio, todos sabem que ele não está andando bem e quis ir ao banheiro por conta dele e ele apresentou essa queda. As escoriações foram pequenas mas ocorreram.

Repórter: Foi por isso a decisão de trazê-lo para cá?

Uip: Não. A decisão está sendo conversada desde segunda-feira e eu venho dizendo a vocês que eu estava respeitando o que me foi pedido por ele e pela família de dar um tempo. Então ontem à tarde conversamos longamente com a família no meu consultório e nós estávamos acertando a vinda dele para cá o mais breve possível no sentido de começar a introduzir esse remédio, que obviamente era o anseio de todo mundo, inclusive nosso. Nós respeitamos o tempo que ele e a família nos pediu e achamos que hoje era um dia oportuno.

Repórter: Qual o estado dele agora?

Uip: Ele está dormindo, e o estado dele é normal, não tem diferença dos dias anteriores. Ele está em observação e vai ser observado pelos responsáveis a cada tempo. Eu não sei se vai ter alta porque ainda temos de verificar os efeitos do medicamento, como vocês sabem não é uma coisa simples. A infusão do medicamento intratecal transcorreu sem qualquer incidência, foi tudo
muito bem, muito correto. Na primeira picada, não teve nenhum problema. O professor Livramento que fez isso. Então tudo correu bem, mas ele está em observação. O critério de alta ou de permanência pertence ao professor Ricardo Brentani e ao professor Milberto Scaff, que são os responsáveis pelo tratamento nesse momento.

Repórter: Ele teve dor de cabeça?

Uip: Ele teve dor de cabeça ontem menor do que nos últimos dias, mas que motivou que ele tomasse o comprimido que ele vem tomando habitualmente, isso de noite. Ele toma dois medicamentos quando tem dor.

Repórter: Inaudível

Uip: Isso eu venho falando para vocês há muito tempo. Nós estamos lidando com uma situação muito grave, o tempo todo é muito grave. A decisão médica de trazê-lo para o hospital foi minha. Eu o avaliei e decidi que ele deveria vir para o hospital pelo inchaço. Nós não conseguimos diminuir o inchaço com o diurético. Ele veio por uma multiciplidade de fatores. Ele estava muito inchado, o diurético que ele tomava em dias alternados, passou a tomar todo dia e não resolveu, ele continuava muito inchado, provavelmente pelo corticóide. Ele toma uma dose alta de Dexametazona, 12 mg por dia, então pelo conjunto de situações clínicas eu resolvi trazê-lo para o hospital. Ele relutou em vir, mas concordou e a esposa concordou que ele viesse. Isso foi hoje exatamente às quinze para as oito da manhã.

Repórter: Se ele for embora hoje, poderá ter de voltar amanhã?

Uip: Isso não está decidido se ele vai. É a típica coisa que não vale a pena falar por hipótese. Como ele está sendo avaliado a cada tempo pelo Dr. Brentani e pelo Dr. Milberto ainda hoje à noite fica mais adequado…

Repórter: Quantas sessões vão ser feitas?

Uip: As sessões não estão definidas porque quando vai se fazer a infusão antes disso se colhe o liquor, por isso nós temos previamente a cada infusão parâmetros quase aritméticos do número de células, proteínas e tudo isso. A decisão do número e da freqüência depende do exame anterior. Então nós tiramos 5 ml desse líquido e injetamos 10 ml do medicamento. Baseado numa conta que é simples comparativa e aritmética vai se fazer o planejamento. Eu imagino que ele deva receber esse medicamento de duas a três vezes por semana.

Repórter: Que tipo de efeito colateral pode ter?

Uip: Isso é que eu não quero falar porque eu não tenho experiência nessa área, a minha área é infecção. Quem tem experiência nisso é o Dr. Brentani e o Dr. Milberto.

Repórter: Quando vamos poder saber se ele terá alta hoje ou não?

Uip: Olha, vai depender da avaliação que será feita pelos médicos hoje à noite.

Repórter: A quimioterapia pode afetar o coração?

Uip: Não, porque ela é localizada. Ela tem ação dentro da meninge, então ela não tem ação no sistema geral, ela tem ação específica dentro da meninge. Por quê? Porque se você fizer uma quimioterapia sistêmica ela não terá a competência de passar a barreira do sangue para o liquor como aplicando diretamente e é a última coisa que eu falo sobre quimioterapia por que eu não entendo nada disso.

Repórter: Quais são as chances reais de sucesso?

Uip: Isso você vai perguntar para o Dr. Milberto e o Dr. Brentani.

Repórter: Quando devemos saber da próxima sessão?

Uip: Acho que devemos saber sobre a nova infusão antes de segunda-feira e não está planejado que ele receba nova infusão nos próximos dias a não ser que aconteça um fato novo.

Repórter: Com o agravamento do quadro, com tudo isso que o senhor contou, seria o caso de afastamento do cargo?

Uip: Eu não falo por decisões políticas ou de governo.

Repórter: E médicas?

Uip: Ele está aqui em observação. Ontem todos vocês viram ele fez um discurso fantástico, lúcido, competente, ótimo. Há uma semana, se eu me deixo levar pela primeira aparência, eu insisto que ele teve aquela confusão motivada por remédios, eu teria tomado uma posição que teria sido precipitada. Então, a calma, a paciência, a observação determina a conduta. Uma semana atrás ele teve um período de confusão. Uma semana depois ele fez um discurso fantástico lembrando de números e de fatos, então por isso que nessa situação a prudência da decisão, a espera, é uma coisa importante. Nós não vamos precipitar nada.

Repórter: inaudível

Uip: Eu tenho a impressão que vocês fotografaram na terça-feira uma quase queda do governador, ele foi escorado e por isso não caiu. Esta noite ele não foi escorado, ele levantou sozinho, ele é imprudente de vez em quando, ele quer tomar suas próprias decisões, ele não se conforma em ficar limitado a acompanhantes, tentou levantar e caiu.

Repórter: E sobre a conversa que o senhor teve com a família?

Uip: A decisão era fazer isso o quanto antes, muito provavelmente. Eu não posso garantir porque não estavam todos presentes. Quem estava presente ficou de falar com quem não estava. A filha, o genro e o neto.

Repórter: O senhor garante que há nova sessão até segunda-feira?

Uip: Eu espero que não. Não está previsto.

Repórter: O senhor acha que agora é hora de colocar o pé no freio?

Uip: Adoraria ser o governador, ter a competência dele, por enquanto eu sou só o médico, também me acho competente mas sem poder de decisão. Está duro decidir pelo lado médico, não me peçam para decidir como governador.