Fugindo do frio, aves migratórias colorem SP

O Estado de São Paulo - Quinta-feira, dia 24 de agosto de 2006

qui, 24/08/2006 - 10h57 | Do Portal do Governo

Pássaros de diversas espécies vêm em busca de comida e abrigo

Shaonny Takaiama

Aves migratórias vindas de Maryland, na fronteira dos Estados Unidos com o Canadá, e também dos Andes, da Venezuela, da Amazônia e do Sul do País à procura de comida têm destino certo em São Paulo: o Zoológico, o Jardim Botânico, a Represa Guarapiranga, o Ibirapuera e outros parques.

É geralmente quando o inverno termina que as aves voltam para o Sul para iniciar o período de reprodução, mas, com as altas temperaturas do inverno atípico, muitas delas iniciam a postura dos ovos ainda no Zoológico. “Nos lagos, é possível ver os irerês já com filhotes”, conta Fernanda Junqueira, bióloga do setor de aves do Zoológico de São Paulo. No período da manhã, quando a ração é colocada na beira dos lagos, é possível encontrar as aves aos bandos. “É um espetáculo. São umas 300 aves voando e emitindo sons”, diz a bióloga.

No período de migração, de maio a setembro, só o Zoológico chega a receber 5 mil aves-hóspedes, principalmente de 3 espécies de marrecos: o irerê, a marreca-caneleira e a asa-de-seda. Elas vêm do Sul do País para fugir do frio intenso e são recebidas como se estivessem em um hotel cinco estrelas. No zôo, encontram três lagos, ninhos artificiais e comida abundante – nessa época, a administração do parque triplica a quantidade de ração distribuída. Não é de se estranhar que muitas delas acabem se estabelecendo no Zoológico.

Além de buscar abrigo dos predadores e comida, essas aves migram também para realizar a troca das penas. “Marrecos são espécies que trocam todas as penas das asas e, durante esse período, não conseguem voar. Quando o inverno termina, elas estão prontas para voltar ao Sul”, explica Fernanda.

Uma das espécies que está para chegar a São Paulo é o juruviara, pássaro que vem de Maryland, na divisa entre Canadá e Estados Unidos. Pequenino e parecido com o nosso tico-tico, ele migra para fugir do frio que começa a chegar em setembro, no Hemisfério Norte. E vem a São Paulo buscar seu alimento preferido. “Onde tem guaçatonga, o bicho aparece. Ele adora comer a fruta dessa planta”, diz o ornitólogo Johan Dalgas Frish, autor do livro Aves Brasileiras. É possível encontrar o juruviara no Parque da Cantareira e no Horto Florestal.

Outro hóspede ilustre que sempre visita a cidade é o tisiu. Pássaro de cor preta, ele sai da Amazônia logo que começa a cair a primeira chuva de setembro em São Paulo. “Com a primeira chuva, cresce o capim e ele tem o que comer. Ele sabe direitinho quando pode chegar aqui, quem vem antes da chuva dança”, explica o ornitólogo. O tisiu sempre se hospeda no Parque do Ibirapuera, lugar preferido também do joão-pires, um papa-moscas que vive na Amazônia, Goiás e Tocantins. As aves da Venezuela também gostam muito do Ibirapuera. É lá que se hospedam o bigodinho, a tesoura e o suiriri-de-sobrancelha amarela.

Já o coleirinha (ou papa-capim) é antigo freqüentador da Represa Guarapiranga. Quando vem a São Paulo, vindo das margens do Rio Ucayali, nos Andes Peruanos, é lá que ele escolhe o seu refúgio natural. “Antes, ele também era visto nas margens dos Rios Pinheiros e Tietê. Com o desaparecimento do capim, para dar lugar ao concreto das margens, ele sumiu de lá”, diz Frish.