Da planta, uma arma contra o ‘Trypanosoma’

O Estado de S. Paulo - São Paulo - Domingo, 2 de janeiro de 2005

seg, 03/01/2005 - 9h05 | Do Portal do Governo

Cientistas acreditam terem obtido remédio que elimina protozoário do sangue de portadores de Chagas

Moacyr Castro, Especial para o Estado

FRANCA – Faltam os testes pré-clínicos, em animais, e o clínico, em seres humanos, mas a equipe de pesquisadores da Universidade de Franca (Unifran) e da Universidade de São Paulo (USP) de Ribeirão Preto aposta que chegou, finalmente, ao medicamento capaz de eliminar do sangue dos portadores do mal de Chagas o temível protozoário Trypanosoma cruzi, descoberto há 95 anos pelo médico Carlos Chagas. Ele é transmitido por um inseto, o barbeiro, e afeta mais de 6 milhões de brasileiros – pelo menos 70 mil com os sintomas de morte anunciada. Mas não será o fim do drama: os doentes ainda terão de fazer transplante cardíaco ou receber células-tronco, porque a ação letal do parasita no coração é devastadora e irreversível.

Mamica de cadela. Esse é o arbusto que dá a cubebina e o metilpluviatolido, substâncias cujos derivados obtidos no Laboratório de Química da Unifran inibem a ação do Trypanosoma cruzi. As pesquisas começaram em 1993, conta o farmacêutico Márcio Luís Andrade e Silva, da Unifran. Venceram a linha fitoterápica de investigação. A mamica tem espinhos em forma de mama de cadela, daí o nome popular da Zanthoxylum naranjillo, encontrada principalmente no Sul do Brasil e, com menor freqüência, em São Paulo.

Um laboratório particular estuda há dois meses a possibilidade de fabricar o medicamento. ‘Só a coluna de purificação da substância, após a obtenção da forma sintética, custa US$ 500 mil’, diz o cientista Jairo Knupp Bastos, da USP, e membro da equipe. A patente já está reconhecida em 74 países, incluindo os da Europa, o Japão e os Estados Unidos, onde o mal de Chagas chegou aos estados do sul numa forma mais resistente que a encontrada no Brasil, mas igualmente sensível à descoberta brasileira.

Em 1988, Bastos estudava as propriedades de 500 plantas para combater esquistossomose e malária. Percebeu que uma delas, a mamica, apresentou atividade intensa contra os protozoários da malária e do mal de Chagas. Antes, tentou-se controlar a doença até com compostos de carbono e ferro e carbono e cromo, mas não houve eficácia.

Quando viu que a mamica é eficiente, Silva passou a cultivá-la no sítio do sogro, em Ribeirão Corrente, perto de Franca. ‘As que estudamos existem nas imediações da Unicamp, em Barão Geraldo, distrito de Campinas, mas a duplicação de uma estrada ali vai acabar com elas.’

Os derivados da cubebina não têm efeitos colaterais: não são tóxicos nem atacam o estômago, o fígado ou os rins, diz Silva, baseado em experimentos com animais. Ele alerta: ‘Há pessoas que costumam dar ao chagásicos chás de mamica, na esperança de obter a cura, mas é certo que não existe ação positiva.’

DOSAGEM E FORMA

Agora, os cientistas esperam obter recursos para começar os testes pré-clínicos e certificar oficialmente que não há toxicidade. ‘Cada ensaio em laboratório credenciado custa R$ 100 mil e dura oito meses’, avalia Silva. Depois, será a vez de seres humanos passarem pela experiência. Mas os pesquisadores já sabem que estão no caminho certo: ‘Sabemos como a droga age contra o parasita e já conhecemos a rota sintética para sua obtenção. Hoje, fazer 100 gramas custa US$ 7 mil.’

Os testes clínicos determinarão a dosagem e a forma do remédio: pode ser um óleo, um pó ou uma cápsula que, nos genéricos, terá o nome de metilpluviatolido. Resta uma expectativa antes dos testes: descobrir se esse medicamento terá efeito curativo ou de tratamento eficaz.

Para ser curativo, o princípio ativo tem de sair do sangue do paciente e ir para o tecido. ‘Mas tudo é questão de formulação farmacêutica’, explica. Ao mesmo tempo, a pesquisa indica que os derivados da cubebina podem agir contra a tuberculose e o vírus HIV. Os ensaios já começaram, confirma Silva.

O estímulo veio quando ele conseguiu, com o programa Jovem Pesquisador, da Fapesp, apoio para intensificar as pesquisas com a mamica. Até agora, a Unifran, que centraliza os estudos, investiu R$ 500 mil e a Fapesp, R$ 250 mil.

A Unifran começou como escola de educação artística, há 30 anos. Em 1996 alcançou o status de universidade. Tem hoje 12 mil alunos, do maternal à pós-graduação, e mais de 30 cursos universitários de graduação. O fundador é Habib Salim Cury, professor-titular, aposentado, da Faculdade de Odontologia da USP de Ribeirão durante 40 anos. ‘Investi nesse projeto porque sou educador. Antes do negócio, prevalece a importância da educação e da pesquisa, que aprendi na USP.’