Ciência e Tecnologia: Descoberta a estrela mais antiga da galáxia

A idade de uma estrela é indicada pela quantidade de metais que a compõe

qua, 06/11/2002 - 20h54 | Do Portal do Governo

Um grupo de astrônomos da Alemanha, Austrália, Estados Unidos, Suécia e Brasil encontrou na borda da Via Láctea a estrela mais antiga de que se tem conhecimento. Por meio de sua composição, calcula-se que a HE0107-5240, como foi batizada, tenha sido formada há 12 bilhões de anos, em tempo próximo ao surgimento da galáxia.

A pesquisadora do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências
Atmosféricas (IAG) da USP, Silvia Rossi, é a representante brasileira na equipe que fez a descoberta. Segundo ela, a composição de uma estrela pode ser medida através da análise de seu espectro. Nesta pesquisa, um telescópio instalado no Chile, equipado com um prisma na frente da lente, registrou em placas fotográficas os espectros de milhões de objetos espalhados no espaço. No mesmo ano, em 1998, teve início a busca das estrelas mais antigas, utilizando o catálogo de imagens produzido. ‘Cada
elemento químico emite ou absorve energia em comprimentos de onda
característicos. Assim, o espectro de um elemento é sua impressão digital’, explica a pesquisadora.

No ano de 2001, o grupo selecionou uma lista de oito mil estrelas com características indicativas de que poderiam estar entre as mais antigas. A lista foi dividida entre os cientistas, que vêm pesquisando as estrelas selecionadas com telescópios instalados em vários observatórios do mundo.

‘Quando uma estrela se confirma como candidata, ela precisa ser observada com mais detalhes, o que é feito utilizando telescópios muito maiores.

Nossa estrela foi encontrada pelo colaborador australiano e, constatado seu baixo conteúdo metálico, foi reobservada no VLT’. O Very Large Telescope (VLT) é um dos maiores e mais modernos telescópios do mundo, instalado no European Southern Observatory (ESO), no Chile. O ESO é um consórcio internacional europeu, onde o IAG também administra um telescópio.

A idade de uma estrela é indicada pela quantidade de metais que a compõe. Segundo o modelo da evolução do universo, as estrelas muito antigas devem ter pouco material metálico. A pesquisadora Silvia Rossi vem trabalhando na busca de estrelas extremamente pobres em metal desde 1995, quando iniciou seu pós-doutoramento na Michigan State University, nos Estados Unidos.

‘Naquele tempo, não conseguíamos detectar estrelas tão fracas quanto agora, porque a sensibilidade das placas fotográficas era baixa’, considera. A equipe atual formou-se em 1998, num congresso na Austrália. Neste mês de novembro, Silvia Rossi deve viajar ao Chile, para aprofundar o estudo das estrelas com características mais interessantes, entre as que pesquisou.

Pobre em metais

A HE0107-5240 é 25 vezes mais pobre em metais que a antiga recordista, e tem dois centésimos de milésimo (1/200.000) da quantidade encontrada no Sol. Praticamente 90% de sua composição é de hidrogênio, 10% de hélio e 0,0005% de metais. Silvia Rossi considera que ela não deve ter surgido a partir do gás primordial da Via Láctea, mas que tem características muito próximas daquelas das primeiras estrelas e é útil para o estudo da evolução química do universo. No total, apenas 25% das 8.000 estrelas selecionadas em 2001 passaram pelas avaliações mais rigorosas, o que mantém
alta a possibilidade de outras estrelas ainda mais antigas serem
encontradas, com a continuidade da pesquisa.

Segundo a teoria, logo após o Big Bang, o hidrogênio e o hélio eram os únicos elementos químicos existentes no universo. Nuvens destes elementos, presentes no espaço, se tornaram densas, ocorrendo um aumento da temperatura em seu interior, e deram condições para o hidrogênio se fundir, produzindo mais hélio. Esta fusão nuclear causa a emissão de luz, o que caracteriza uma estrela. Os outros elementos químicos, como os metais, surgiram de fusões de átomos cada vez mais pesados, procedentes de outras fusões.

Explosões das estrelas mais antigas começaram a espalhar os elementos mais pesados que o hidrogênio e o hélio no espaço, poluindo nuvens de átomos que depois se tornaram novas estrelas, constituídas desde seu princípio com elementos metálicos. Assim, a baixa quantidade de metais numa estrela indica que ela foi formada em um tempo mais próximo ao Big Bang, tendo sido constituída por poucos elementos pesados. ‘A composição química de uma estrela é um reflexo direto dos elementos existentes na
nuvem-mãe, da qual ela foi formada’, resume Silvia Rossi.

A teoria ainda explica que, tendo a massa relativamente pequena, uma estrela pode nunca chegar a produzir átomos de metal, terminando sua vida no final da fusão de hidrogênio ou de outros elementos menores que os metais, e apagando.

Mais informações: (11) 3091-2822